Vida
Primeiro veio um cujo nome eu não me lembro. Deve ter sido Toby, ou algo parecido. Na época, Totó já era muito clichê. Ficou algumas semanas, e depois algum conhecido aceitou levá-lo a uma chácara, porque não estávamos preparados. Era muito cocô e xixi pela casa pequena. Hoje consigo imaginar a loucura que devia ser para meus pais criarem três filhos pequenos e ainda terem que limpar bagunça de filhote.
Foi só alguns anos depois que veio o Hulk. Em vez de vira-lata, era Boxer, mas nada de raça pura ou pedigree: tinha alguma mistura de raças na mãe, por isso tinha um focinho um pouco menos achatado. Eu me lembro vagamente do dia em que escolhemos o filhotinho, que ainda precisava de uma ou duas semanas de amamentação antes de ir com a gente. Fazia festa, bagunça, mordia a porta, babava em mim e no meu irmão (na minha irmã também, mas ela fugia das gosmas nojentas). Hulk era a alegria da casa – desta vez, uma casa um pouco maior, com escada, algum quintal, em uma rua mais tranquila.
Foi o Hulk que ensinou a gente a colocar ração, trocar água, dar banho. Corria pela rua com a coleira se arrastando pelo chão. Gastava bastante energia: a dele e a nossa.
Foi o Hulk, também, meu primeiro contato com a morte. Não ficou muito tempo doente, mas havia passado pelo veterinário, se não me falha a memória, e devia estar tomando algum remédio. Passou mal e se foi antes do veterinário chegar em casa. Tudo o que pudemos fazer era assisti-lo vomitando e sofrendo, apenas tentando acolher um pouco a dor. Em algum momento, as minhas esperanças de que ele sobreviveria se foram. Eu vi alguma paz na morte. Talvez eu sempre tenha encarado a morte como algo natural, ou inevitável, do tipo de coisa que é melhor aceitar e seguir adiante do que querer vencer. Ele tinha oito anos. Dizem que Boxer tem tendência genética a problemas cardíacos.
Antes disso tudo, já tinha o Bob. Encrenqueiro que só ele. Rosnava para o Hulk, que gostava de infernizar o coitado. Se estivesse comendo a ração, era melhor nem chegar perto. O baixinho invocado me mordeu em mais de uma oportunidade, e me irritou muitas vezes, também. Em algum momento, tornou-se aquele cão que apenas está ali. Não sei como chegou em casa, talvez pela vontade de uma raça menor que o cão de guarda.
Às vezes, capturava passarinhos em pleno rasante e os devorava. Provavelmente por esse motivo tinha a boca fedida. Mas gostava de carinho atrás da orelha e era fácil de segurar seu corpo de salsicha. Eu o erguia pela parte de trás e ele não conseguia fugir. Um dia, com alguma doença e já com uns 10 anos, foi ao veterinário e nunca mais voltou. Tadinho. Deu mais pena que tristeza.
O Roy chegou quando ainda tinha os dois. Eu me lembro perfeitamente do dia em que ele pisou em casa pela primeira vez. O veterinário deu de presente para a minha irmã, sem imaginar que ele viraria o maior parça da minha mãe. No dia em que ele chegou, eu era um adolescente triste que não vivia os melhores momentos nas relações interpessoais. Não sei se na época já se utilizava a palavra bullying. É impressionante como as lembranças tristes ficam mais vivas na memória.
Mas o Roy era muito fofo e cheio de energia. A raça Beagle, quando filhote, dá trabalho. Depois, mais velho, é a tranquilidade em pessoa – quer dizer, em cachorro. Ele chegou a cair da sacada, mas não teve uma contusão sequer.



Já vivendo na outra casa, Roy seguia minha mãe por onde ela fosse. Dormia ao lado da cama dela, ia para a cozinha, se sentava quietinho, e se deitava quando ela saía, sempre pressentindo sua chegada alguns minutos antes. Aos 16 anos, após longo tempo de vida para um cão, morreu como deveriam morrer, idealmente, todas as criaturas do reino animal (o que nos inclui, os humanos): foi perdendo as energias gradativamente, e um dia simplesmente dormiu para nunca mais acordar.
Mas antes desse acontecimento, teve o Apolo.
Outro Boxer, dessa vez branco e com algumas manchas. Não consigo me lembrar exatamente como foi a chegada dele. Mas foi o mais carinhoso de todos. Brincalhão como todo Boxer, chegou a dar bastante trabalho por brigar com o Roy. Não curiosamente, eles se mordiam e se agarravam apenas quando minha mãe estava perto, numa espécie de disputa. Por algum tempo, era um sacrifício mantê-los separados, mas tinha um portão no quintal, então fazíamos o possível. Fiz longas caminhadas com ele, recebi muitas lambidas e cocei muito suas costas e seu bumbum para agradá-lo, sempre tendo que me livrar de seus pedidos por mais carinho, porque eu tinha meus afazeres e ele nunca estava satisfeito.
Ele se foi aos seis anos. Jovem. Problemas de saúde, idas e vindas em diversos veterinários que o entupiram de remédios, mudaram protocolos e nunca souberam muito bem o que fazer. Lembro-me que ele quase não comia, passou a ter dificuldade para mastigar, resistia a ingerir os remédios, e deu muito trabalho por algumas semanas, até não resistir. Quando o sofrimento é demais, a morte vem acompanhada de alívio.
O último foi o Phelps. A casa estava alguns meses sem nenhum cão quando surgiu um vira-lata magrelo e amedrontado no quintal. Entrava e saía. Havia alguns outros cães que depois sumiram, mas ele ficou porque oferecemos a ração que havia sobrado. Decidimos que ele ia ficar, e aos poucos ele foi perdendo o medo de gente. Na época, um nadador americano ganhava medalhas todos os dias nas Olimpíadas que passavam na TV, e minha mãe lhe deu o mesmo nome.



Não sabíamos sua idade, nem seu passado. Mas ele saía de casa sozinho, voltava por conta própria. Era independente e foi assim por muito tempo. Tinha uma cicatriz grande no dorso e as pontas das orelhas cortadas. Deve ter sido vítima de violência. Nunca saberemos pelo que ele passou. Adorava tomar sol, mesmo sob o verão escaldante. Foram oito anos vivendo a aposentadoria dos sonhos, envelhecendo com certa tranquilidade (a estimativa é que ele tenha passado dos 15 anos), até que começou a ter tosses, passou a tomar remédios, e meses depois piorou de vez. Foram praticamente 24 horas de paliativos para morrer sem sofrer.
Sobre este texto:
A Jana Bianchi fez um lindo texto sobre as casas em que viveu. Eu gostei muito, me senti inspirado, mas sabia que não faria nenhum sentido, para mim, falar sobre moradias (aliás, segue abaixo a dica do texto e da newsletter Boletim de Ocorrência). Então pensei nos cães: traçar uma trajetória dos cachorros que passaram pela minha vida. Agora, percebo o quanto a morte está presente nas palavras que desembrulhei desta vez.
E só agora eu me dou conta de que é impossível falar sobre morte sem tratar de sua antítese. No fim, é disso que trata este texto: da vida.
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Fiquei aqui lembrando do Guga, óbvio. Acho que conheci o Roy, pelo menos tenho lembranças de você falar dele. O Phelps era um querido, mesmo me estranhando às vezes, sempre me deixava fazer carinho.
É muito triste que a vida deles seja tão curta em relação à nossa, mas que bom que tivemos a oportunidade de viver com esses bichinhos tão incríveis.
Adorei! Estes bichos incríveis deixam histórias na nossa vida.
Acabei de adotar uma magrelinha que sofreu maus tratos e é portadora da Leishmaniose (em tratamento), o que não tira a sua energia de brincar e de se sentir a dona da casa, deixando o Zezinho meio P da vida com ela, mas já são amigos.